domingo, 15 de julho de 2007

A ARTE LITERÁRIA DE JOÃO MANUEL SIMÕES




1. SIMÕES, João Manuel. Algumas notas breves sobre a poesia. Curitiba: Lítero-técnica, 1991. 36p. [Exemplar autografado: Para o Vicente Martins, confrade brilhante, com votos de Boas Festas. Simões. 12/91”]
2. SIMÕES, João Manuel. Alguns estudos breves sobre Dalton Trevisan. Curitiba: lítero-técnica, 1993.
3. SIMÕES, João Manuel. Armorial do verbo: sonetos. Curitiba: edição do autor, 2002. [ Exemplar Autografado: “Para o Vicente Martins, fraternalmente. Simões. 6/07”]
4. SIMÕES, João Manuel. Canto plural ou tentação de ícaro. Curitiba: HDV, 1990. 92p. [Exemplar autografado: “Para o eminente crítico Vicente Martins, com o abraço fraterno do Simões 5/90”]
5. SIMÕES, João Manuel. Cervantes & Dom Quixote. Revista da Academia Paranaense de Letras, Curitiba 69 (52) 2005, pp. 139-159.
6. SIMÕES, João Manuel. Evocação do bruxo de Cosme Velho: notas machadianas. Curitiba: Lítero-técnica, 1991.
7. SIMÕES, João Manuel. Ficção possível: contos. São Paulo: Grafikor, 1989. [Exemplar autografado: Para o Vicente Martins, confrade brilhante e amigo dileto, com o abraço do Simões 9/89]
8. SIMÕES, João Manuel. Imprensa: escritos esparsos. Curitiba:Lítero-técnica, 1987. [ Exemplar autografado: Para Vicente Martins, fraternalmente. Simões 2/88”]
9. SIMÕES, João Manuel. In memorian de Harley Clóvis Stocchero. Revista da Academia Paranaense de Letras, Curitiba 69 (52) 2005, p.32.
10. SIMÕES, João Manuel. Inscrições para os muros de babilônia & vôo com pássaros dentro. Curitiba: lítero-técnica, 1982. [ Exemplar autografado: “Para o Vicente, com estima. Simões jan/86”].
11. SIMÕES, João Manuel. Lira de Dom Quixote. Curitiba: Líutero-técnica, 1992. [Exemplar autografado: “Para o Vicente Martins, crítico brilhante, com o abraço do Simões. 4/92”]
12. SIMÕES, João Manuel. O túnel circular e outros contos. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986. ( Coleção Prosa Brasileira, nº 16) [Para o Vicente Martins, confrade e amigo, agradecendo as citações deste modesto escriba. Simões nov/86]
13. SIMÕES, João Manuel. Ode ao alfares Joaquim José da Silva Xavier. Curitiba: Lítero-técnica, 1985.
14. SIMÕES, João Manuel. Odes, elegias e outros poemas. Brasília: Thesaurus, 1987. [Exemplar autografado: “Para o Prof. Vicente, com alto apreço intelectual. Simões. Jul/88”].
15. SIMÕES, João Manuel. Poemas da infância: antologia poética. 1ª ed. Curitiba, HDV, 1989. [Exemplar autografado: “Para o Vicente Martins, com o abraço do Simões. 4/89”]
16. SIMÕES, João Manuel. Rapsódia européia. 2ª ed, revista e aumentada. Introdução de Temístocles Linhares. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.[Exemplar autografado: “Para o Vicente de Paula da Silva Martins, com especial apreço. Simões jan/86”]
17. SIMÕES, João Manuel. Rapsódia mineira: concerto barroco. [ Exemplar autografado: “Para o prezado Confrade e Amigo Vicente Martins, esta Rapsódia Mineira, talvez a primeira de uma série em que o Ceará de Iracemas e dos “verdes mares” terá lugar de destaque. Simões 20/03/87]
18. SIMÕES, João Manuel. Rudepoema ou peregrinatio ad loca iníqua. Curitiba: Lítero-técnica, 1985.
19. SIMÕES, João Manuel. Sonetos do tempo incerto. Curitiba: Lítero-técnica/Secretaria da Cultura e do esporte do Paraná, 1981. [ Exemplar autografado: “Para o Silva Martins, com alto apreço intelectual. Simões. Jan/86”]
20. SIMÕES, João Manuel. Virgílio & Camões: duas presenças vivas. Ensaio sobre a cultura. Capa de Álvaro Borges. Curitiba: Lítero-Técnica, 1981. 60p. [Exemplar autorgrafado: Para o Vicente, fraternalmente. Simões. Jan/86]
21. SIMÕES, João Manuel. 2ª ed, revista. Suma poética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.( Coleção Poesia Hoje, nº 68).[Exemplar autografado: “ Para o V.P da Silva Martins, com cordial esdtima. Simões jan/86”].82p.
22. SIMÕES, João Manuel. Presença de Balzac: notas de um diário.São Paulo: Grafikor, 1988. [Exemplar autografado: “Para Vicente Martins, com votos de Boas Festas. Simões dez/88”]
23. SIMÕES, João Manuel. Flauta mágica. Curitiba: Lítero-Técnica,1993.[Exemplar autografado: “Para o brilhante Vicente Martins, com alto apreço. Simões 8/93].
24. SIMÕES, João Manuel. Sintaxe do silêncio. Curitiba: Lítero-técnica, 1984. 61p. [Exemplar autografado: “Para o caro confrade e amigo Vicente Martins, come special estima. Simões jan/84].
25. SIMÕES, João Manuel. Poemas de um heterônimo cri(p)tico: homenagem a Fernando Pessoa. São Paulo: Grafikor, 1988.66p. (Coleção Pessoana – Série Poesia, nº 1) [Exemplar autografado: “Para o amigo e confrade Vicente Martins, com o abraço do Simões. Julho/88]
26. SIMÕES, João Manuel. Albert Camus: notas e reflexões à margem de “A Peste”. Curitiba: Lítero-Técnica, 1989. 16p. [Para o confrade Vicente Martins, com votos de um Feliz 1990. Simões. Jan/90]
27. SIMÕES, João Manuel. Parágrafos escritos nas páginas do vento. Curitiba: Lítero-Técnica,1982. 71p. [Exemplar autografado: “ Párea o amigo e confrade Vicente Martins, com apreço. Simões jan/86].
28. SIMÕES, João Manuel. Reflexões sobre a liberdade. Curitiba: Lítero-Técnica, 1986.79p. [Exemplar autografado: “ Para o excelente crítico Vicente Martins, com estima. Simões abril/86]

segunda-feira, 11 de junho de 2007

ANDERSON BRAGA HORTA
















Filho dos poetas Anderson de Araújo Horta e Maria Braga Horta, nasceu em Carangola, MG, em 17.11.1934. Morou em Manhumirim, Belo Horizonte, Resplendor e Mutum, antes da ida para a cidade de Goiás. Mais tarde, em Goiânia, começou o curso de humanidades no Ginásio Dom Bosco.



Retornando a Minas com a família, a essa altura, composta de sete pessoas, passou sucessivamente por Aimorés, Mantena e Lajinha. Concluiu o ginásio no Colégio Pio XI, em Manhumirim, e cursou o clássico no Colégio Leopoldinense, da cidade onde morreu Augusto dos Anjos.

No Rio de Janeiro, fez Direito na Faculdade Nacional, da Universidade do Brasil. Transferiu-se para Brasília em julho de 1960; do Rio a família afinal lhe seguiu os passos de volta ao Planalto Central. Fez o primeiro vestibular da Universidade de Brasília, para Letras Brasileiras. Casou-se em 1962 com a capixaba Célia Santos. Em 1964, pai novato de um casal de gêmeos -Anderson e Marília-, vendo os tanques nas ruas e a UnB esfacelar-se, abandonou o curso. Na velha e na nova capital, exerceu o jornalismo e o magistério. É funcionário aposentado da Câmara dos Deputados.



Colaborou muito em jornais e revistas e participou em diversas obras coletivas antes da estréia em livro individual, com Altiplano e Outros Poemas (Ebrasa/INL, Brasília, 1971), a que se seguiram Marvário (Clube de Poesia de Brasília, 1976), Incomunicação (Comunicação/INL, Belo Horizonte/Brasília, 1977), Exercícios de Homem (Comitê de Imprensa do Senado Federal, 1978), Cronoscópio (Civilização Brasileira/INL, Rio de Janeiro/Brasília, 1983), O Cordeiro e a Nuvem (Thesaurus, Brasília, 1984), O Pássaro no Aquário (André Quicé, Brasília, 1990), Dos Sonetos na Corda de Sol (Editora Guararapes-EGM, Jaboatão dos Guararapes, PE, 1999), Quarteto Arcaico (EGM, 2000), Fragmentos da Paixão: Poemas Reunidos (Massao Ohno, São Paulo, 2000, com apoio cultural do FAC, da Secretaria de Cultura do DF), Pulso (Barcarola, São Paulo, 2000), Antologia Pessoal (Thesaurus, 2001), 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (Galo Branco, Rio, 2003; com Antonio Carlos Osorio, Antônio Temóteo dos Anjos Sobrinho, Fernando Mendes Vianna e José Geraldo, Pentagrama, sonetos (Thesaurus, 2001); com Fernando Mendes Vianna e José Jeronymo Rivera, Poetas do Século de Ouro Espanhol, Victor Hugo: Dois Séculos de Poesia e O Sátiro e Outros Poemas, seleção e tradução (Thesaurus, 2000 e 2002, e Galo Branco, 2002, respectivamente).



Publicou ainda, em colaboração com Joanyr de Oliveira, Izidoro Soler Guelman e Elza Caravana, os contos de O Horizonte e as Setas (Horizonte, Brasília, 1967); com Aderbal Jurema e Domingos Carvalho da Silva, Semana de Estudos sobre Manuel Bandeira (CEUB, Brasília, 1982); com H. Dobal, Na Cadeira de Álvares de Azevedo (discursos acadêmicos, Brasília, 1986); singularmente, o ensaio Erotismo e Poesia (Thesaurus, 1994), o estudo seguido de antologia temática A Aventura Espiritual de Álvares de Azevedo e Sob o Signo da Poesia: Literatura em Brasília (Thesaurus, 1994, 2002 e 2003, os dois últimos com apoio cultural FAC).





Poemas, contos e crônicas seus figuram em cerca de sessenta antologias organizadas, no País ou no exterior, por Walmir Ayala, Almeida Fischer, Joanyr de Oliveira, José Santiago Naud, Pedro Lyra, Sílvio Castro, Rumen Stoyanov, Napoleão Valadares, Salomão Sousa, Victor Alegria, Sofía Vivo, Nilto Maciel, Aglaia Souza, Sergio Faraco, Xosé Lois Garcia, Ronaldo Cagiano, entre outros. Dentre os prêmios literários que recebeu destacam-se: Jean Cocteau, da revista A Época (Rio, 1957); Gavião, da Livraria Antunes, e Antonio Botto, do Ipase (1959); Alberto Rangel, de O Cruzeiro, Clube de Poesia de Campos, e Canção do Mar, do Diário de Notícias (1960); Revista do Funcionário Público, conto e poesia (1961); Medalha da Amicizia Italo-Brasiliana (Roma, 1962); Nacional de Poesia, Rio (1964); Olavo Bilac (1964 e 1966) e Machado de Assis (1966), do Estado da Guanabara; Bicentenário de Bocage (2.º; Setúbal, 1965); Alphonsus de Guimaraens, da Academia Mineira de Letras (1966); Rubén Darío (3.º; OEA, 1967); Fernando Chinaglia II, da UBE-RJ (1969); Lupe Cotrim Garaude, da UBE-SP (1978); Álvaro de Carvalho (Florianópolis, 1996); Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, São Paulo (2001).





Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/brasil/anderso_braga.html. Acesso em 11 de junho de 2007.

As imagens da infância: um estudo sobre poesia e imaginação

Universidade Federal de Rondônia Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário


As imagens da infância: um estudo sobre poesia e imaginação
Sueli Aparecida da Costa[1]Antonio Donizeti da Cruz[2]


RESUMO: O objetivo deste texto é analisar como o poeta João Manuel Simões incorpora e resgata em seus poemas as imagens da infância, percorrendo o universo imaginário numa viagem em versos.

João Manuel Simões nasceu em Mortágua-Portugal e, há anos, vem servindo a cultura e a literatura paranaense (Curitiba). Possuidor de uma linguagem de referencial erudito, sua poesia tem se destacado por um fazer poético que transforma as palavras em étimo das imagens.
A lírica de Simões apresenta uma precisão vocabular, pela riqueza das imagens, pela síntese poética, pelo teor de intertextualidade e vocação poética transportados para a poesia na arte de construção da linguagem poética. Tais características povoam a poesia de Simões com várias marcas da modernidade, buscando atingir o estado de síntese pela escolha das palavras e das imagens que aguçam a imaginação do leitor.
A imaginação é o vetor da criação poética, ela embriaga qualquer criação artística de qualquer época ou “período” literário. A grande missão do poeta consiste em atrair essa força poética que se acha contida no imaginário e convertê-la em descarga de imagens. A experiência poética é criação do homem pela imagem e pela linguagem; é o abrir das fontes do ser. Por meio da imaginação o ser humano consegue dar forma as coisas mais tênues e se auto-afirmar enquanto ser no mundo. O poema apresenta-se como possibilidade aberta de significação, já que ele só se anima ao contato, à participação de um leitor que, durante a leitura, dará margem à imaginação, movimentando as imagens poéticas e alimentando-as com suas experiências. Sem leitor a obra só existe pela metade. O poeta cria o poema, mas “o povo, ao recitá-lo, recria-o. Poeta e leitor são dois momentos de uma mesma realidade” (PAZ, 1982: 47).
A imaginação constitui a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade, é fonte de equilíbrio e cria a fantasia poética, fazendo do poeta/leitor sonhador de palavras. O processo imagético e onírico é perene no ser humano e, ao longo da história da arte, a imaginação faz parte do processo criador. Poesia e imaginação são dotadas de uma magia encantatória que desperta no homem a cosmologia da imagem, transformando as palavras em símbolos que transmitem sonhos e memórias partilhadas.
No dizer de Bachelard, é pela imaginação que se dá forma às imagens, pois na fenomenologia do devaneio poético, qualquer imagem, por mais simples que seja, é capaz de revelar o mundo. A poesia é o fio condutor das imagens e da imaginação; ela suscita a tomada de consciência dos fenômenos que ocorrem na alma do sonhador. O poeta está na condição de sonhador que, ao sonhar, oferece mundos que nascem de uma imagem cósmica elevada à potência máxima de exaltação. Conhecer a essência da imaginação implica lançar vôo no devaneio cósmico que alimenta as imagens poéticas. Bachelard afirma que compete ao poeta “o dever de ensinar-nos a incorporar as impressões de leveza em nossa vida, a dar corpo a impressões quase sempre desprezadas” (BACHELARD, 2001: 199).
Os poetas trazem para o espaço do papel a cosmicidade das imagens que evocam recordações e devaneios, canalizando memória e imaginação na essência das imagens poéticas. Assim, a poesia passa a ser “uma força de síntese para a existência humana” (BACHELARD, 2001: 119), pois une a imaginação e a memória, revelando estados da alma e, ao mesmo tempo, sendo convite ao devaneio poético: “o poeta dá à imagem um destino de grandeza” (2001: 168).
O poder da imagem simbólica reside na “transfiguração de uma representação concreta através de um sentido para sempre abstracto (sic). O símbolo é, pois, uma representação que faz aparecer um sentido secreto, é a epifania de um mistério” (DURAND, 1995: 12. Grifos do autor). Neste sentido, a poesia é repleta de símbolos que constituem a cifra de um mistério, de um enigma que remete para um sentido que não está plenamente visível; são sinais que conduzem a um sentido, cuja metade (significado) encontra-se numa espécie de obnubilação, enquanto a outra metade (signo) é visível. De acordo com a classificação feita por Durand, o símbolo seria um “signo que remete para um indizível e invisível significado” (1995: 16) e, deste modo, só pode ser captado dentro de uma imaginação simbólica.
A imaginação é uma rede complexa de relações e aparece como o “denominador fundamental onde se vêm encontrar todas as criações do pensamento humano. O imaginário é esta encruzilhada antropológica que permite esclarecer um aspecto de uma determinada ciência humana por um outro aspecto de uma outra” (DURAND, 2002: 18. Grifos do autor). No domínio da imaginação, a imagem não pode ser degradada, pois ela é portadora de um sentido que não deve ser procurado fora da significação imaginária. Neste sentido, Durand compartilha da mesma concepção de seu mestre Bachelard, afirmando que a imaginação é dinamismo organizador, “é potência dinâmica que ‘deforma’ as cópias pragmáticas fornecidas pela percepção, e esse dinamismo reformador das sensações torna-se o fundamento de toda a vida psíquica porque ‘as leis da representação são homogêneas’” (2002: 30).
Para Gaston Bachelard, é pela imaginação que damos formas às imagens; ela não é “a faculdade de formar imagens da realidade; é a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade, que cantam a realidade” (2002: 18). A poesia constitui a matéria-prima para uma fenomenologia da alma, pois suscita imagens cósmicas que pertencem ao universo anímico da consciência humana. A imaginação faz a correspondência entre as imagens e as palavras e, nesta associação, o poema é uma fonte de evocação da memória e da recordação. Estudar as imagens da infância pela obra literária e pela palavra poética é uma forma de adentrar neste universo misterioso da imaginação simbólica, pois a arte é portadora de vozes que repercutem ecos ontológicos, voz que ecoa os tons da natureza e do homem: espelho da humanidade.
As imagens da infância, presente nos poemas de João Manuel Simões, apenas confirmam a manifestação uma infância permanente, uma infância imóvel e, neste sentido, os devaneios poéticos são a continuidade dos devaneios de infância. Mas, para que as imagens de criança retornem com a mesma beleza, a alma e o espírito devem estar em comunhão, já que os dois não possuem a mesma memória. Somente quando entram em harmonia é que a imaginação e a memória atingem a plenitude do devaneio – “imaginamos reviver o passado". Os poetas lançam um convite à imaginação, a imaginar esta infância perdida, a inventar o passado, como se o devaneio voltado para a infância devolvesse vida às vidas que não aconteceram, mas que foram imaginadas na infância. O devaneio poético resgata estas imagens que ficaram na memória, esboçando a profundidade do tempo e da alma de criança num passado desaparecido.
Neste sentido, “a poesia é uma força de síntese para a existência humana” (BACHELARD, 2001: 119), já que a poesia possibilita analisar a infância de forma tão mágica, que traz para o espaço do poema o mesmo maravilhamento da infância vivida. Desperta a cosmicidade da infância unindo imaginação, memória e poesia. Os poetas põem o leitor/ouvinte em presença de lembranças que revelam estados de alma, convidando-os a mergulhar nas profundezas da lembrança até encontrar a paz e reencontrar as imagens de seu passado. Assim, lembrança, poesia e imaginação caminham juntas quando se trata de devaneios voltados para a infância.
As estações da infância marcam a memória com signos indeléveis; são lembranças revividas somente no devaneio e que permite canalizar memória e imaginação na essência das imagens poéticas. No poema “Infância”, o poeta equipara a infância a um rio sereno e puro, que corre no curso da vida como doces lembranças que se projetam para o futuro:

Rio sereno e puro
(música a sua voz!)
a deslizar, alado,
por entre verdes margens.
Ah! pudéssemos nós
(breves, sutis miragens)
fazer desse passado
futuro!
(Suma Poética, 1983: 30)

Nota-se neste poema, a riqueza das imagens poéticas, que em consonância ao título, ganham grande poder enunciativo, uma vez que a presença da infância vem como um sentimento de uma recordação comparada à “sutis miragens”, que, além de provocar saudade, vem com um sentimento calmo, sereno, como uma voz que ecoa no íntimo do ser, alçando vôo na imaginação, e projetando no sujeito lírico uma viagem rumo ao passado ou à infância via imaginação. A presença da infância viva estende-se à vida adulta, já que o desejo do eu-lírico é “fazer desse passado futuro”, deixando que o rio da imaginação corra até os confins do seu ser, percorrendo “verdes margens”. No entanto, estas memórias da infância são breves e sutis, pois duram apenas os instantes em que o sujeito lírico encontra-se navegando o rio do devaneio e por entre margens e florestas de símbolos.
É com relação a estes instantes de fluidez e imaginação que a poesia corresponde a um breve prelúdio, no qual o poeta se deixa conduzir pela corrente da alma, ou como afirma Staiger, “há um discreto inflamar-se do mundo no sujeito” (1997: 34), pois o poeta abandona-se à criação pela “disposição anímica”. Há uma unidade entre o trabalho e a inspiração, entre o mundo e o sujeito, em que a forma e o conteúdo estão ligados pela sonoridade das palavras. Estas, por sua vez, sugerem a disposição da alma do poeta, que se deixa conduzir pela imaginação e recordação e, ao fazer isso, transfere para o poema o mesmo encantamento de sua alma.
A poesia lírica é dotada de alma, pois constitui uma fluidez da imaginação na recordação. O poeta lírico não tem destino próprio, não cria história, ele deixa-se conduzir pela inspiração, pela “recordação”. No poema “Evocação da Infância”, o sujeito lírico faz uma volta à infância, através da recordação ou evocação, em uma espécie de tentativa de buscar explicações para transformar a existência e o viver: para entender o mistério da sua existência.

No fim do mar,
muito longe, ficaram,
no espaço azul secreto
da distância,
doces ilhas
pretéritas:
a casa, a igreja, a escola,
a infância.
Vejo-as com olhos de alma,
indistintas,
desta maturidade
que é meu porto.
Mas quem será que as vê,
de fato?
O adulto
ou o menino morto?
(Canto em Mi(m), 1982: 28)

A (re)aparição e recordação da infância distante suscitam no eu-lírico a saudade de um tempo que já passou, mas que deixou marcas indeléveis na alma. Mais que isso, o eu-lírico recorda com os olhos da maturidade, de uma maturidade que é seu porto e que permite resgatar a memória tão viva e presente, de tal modo que este sujeito lírico já não distingue quem realmente vê: se o menino ou o adulto. É como se no adulto existisse a presença incrustada do menino que ele foi, que não existe mais, mas que teima em voltar, sempre vivo em sua memória e recordação.
De algum modo, a infância direciona a vivência adulta, seja através da memória, lembrança, seja através dos ensinamentos ou da magia que envolve a infância. A beleza pura e simples do olhar de criança, que vê em tudo o lado mágico, belo e feliz, ou no dizer do poeta, esta infância que ficou “no fim do mar” e faz com que o eu-lírico projete no mundo o mesmo encanto da infância e abstraia deste encantamento os ensinamentos necessários à vida, para fazer de sua maturidade um porto seguro. Nestas doces “ilhas pretéritas” da reminiscência esconde uma infância sempre viva, imóvel e permanente, sobre a qual borbulha os “olhos indistintos” da imaginação.
A temática do tempo e da memória, na lírica João Manuel Simões, revelam-se canais que ajudam a entender o fenômeno que ocorre na consciência humana. É possível rever o mundo com as cores da primeira vez, com as lembranças indeléveis da infância, atravessar as idades sem envelhecer. A infância está na origem dos maiores devaneios, das maiores imagens, uma vez que a beleza das imagens reside no fundo de cada memória. Como um retrato antigo sempre novo, a memória vai construindo no presente a história do futuro, ajudando a moldar a história da humanidade. Assim, a poesia é o fio condutor das imagens e da imaginação, ela suscita uma tomada de consciência dos fenômenos que ocorrem na alma do sonhador. Por isso, ela é força capaz de dar sentido a vida e clarificar a própria história. A poesia promove o encontro do homem consigo mesmo por meio da imaginação.
Nos versos de João Manuel Simões, as palavras transmudam-se em imagens que assumem a grandeza dos símbolos. Deixam de ser simples “moléculas de dicionário” para se revestirem de um dinamismo criador de sonho, de ritmo e beleza – de imaginação. João Manuel Simões nega-se a praticar o que ele chama de “mero halterofilismo verbal”, afirmando que a poesia é muito mais do que “um prodígio encantatório que vivifica e aliena, faz ascender aos céus e precipita nos abismos, mais, muito mais do que tudo isso, é vida. Vida e fonte de vida. Será isso muito? É muito e é tudo” (SIMÕES, 1978: 67).
A poesia é uma matéria viva que traz em seu bojo o futuro do homem, as respostas, ou pelo menos, as insígnias que abrem as fontes do ser e da existência humana. Nos versos de João Manuel Simões, o poeta conduz o homem a uma viagem rumo ao infinito mistério do ser e da imaginação, não só pela evocação da infância, mas por toda a riqueza de imagens que despertam na memória do leitor a imaginação simbólica.

BIBLIOGRAFIA
BACHELARD,Gaston. A água e os Sonhos: Ensaio sobre a imaginação da matéria.São Paulo: Martins Fontes, 2002.
________. A Poética do Devaneio. São Paulo : Martins Fontes, 2001.
DURAND, Gilbert. A imaginação simbólica. Trad. Carlos Aboim de Brito. Lisboa: Edições 70, 1995.
________. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arqueologia geral. 3 ed. Trad. Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
________. A outra voz. Trad. Wladir Dupont. São Paulo: Siciliano, 1993.
SHELLEY. Defesa da Poesia. In: LOBO, Luiza. Teorias poéticas do Romantismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
SIMÕES, João Manuel. Suma poética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
________.Canto em mi(m) ou A secreta viagem. Curitiba: Coleção Academia Paranaense de Lertras, 1982.
________. Clareza e mistério da criação literária: ensaios. Curitiba: Editora Lítero-técnica, 1978.
STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

Notas
[1] Aluna do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras – Área de Concentração em Linguagem e Sociedade – da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus de Cascavel – PR. suelicost@hotmail.com
[2] Orientador e Professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras – Área de Concentração em Linguagem e Sociedade – da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus de Cascavel e Professor do Curso de Letras, Campus de Marechal Cândido Rondon. donizeti@unioeste.br

Fonte: http://www.cei.unir.br/artigo85.html. Acessado em 11 de junho de 2007

ENCONTRO COM OS POETAS DA GERAÇÃO DE 45



Vicente Martins
Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA)

A correspondência constitui uma das formas mais legítimas e palpitantes de expressão do humano”
(Cassiano Nunes)
Foto: Domingos Carvalho da Silva


O presente trabalho refere-se a um estudo de natureza epistolográfica baseado no registro de correspondência, iniciado, em 1985, com poetas da Geração de 45. No início do intercâmbio postal, as cartas nasceram de uma necessidade que tive, então na condição de estudante do Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (UECE), de dialogar e aprender com os poetas neomodernistas; posteriormente, superada a necessidade dialógica, passei a configurar um interesse acadêmico pela epistolografia enquanto gênero literário, de importância capital na crítica literária contemporânea.

Dividimos nosso texto assim: 1) a sala de leitura como ponto de partida; 2) contexto sócio-cultural da Geração de 45; 3) a neomodernidade da Geração de 45 e d) cartas dos poetas, onde apresentamos excertos de algumas cartas, fruto do intercâmbio que mantemos com alguns dos poetas da Geração de 45.
À primeira vista, com o prenúncio da sociedade informática, a idéia que muitos têm é de que o gênero epistolar e a arte de correspondência já estão superados pelas novas tecnologias eletrônicas. Na verdade, a sociedade informática fortalece o intercâmbio através dos recursos on-line de conversação. Como bem assinala Cassiano Nunes, quanto mais a sociedade se moderniza, mais a correspondência se intensifica, se valoriza e se conserva. Daí, dizer-se que a arte de correspondência nasceu do pragmatismo (NUNES: 1982, p.69). Em substância, a carta é expressão do diálogo humano.

Esta nossa preocupação acadêmica com cartas vem se forjando há mais de duas décadas, resultado de intenso e diligente intercâmbio epistolar com poetas e escritores brasileiros. Desde adolescente o intercâmbio postal me fascina bastante. Cartear também abre (e abriu-me) horizontes.

A consciência de que a melhor forma de ingressar no mundo do trabalho é pela via do concurso público ou processo seletivo veio quando, através de uma carta, em 1982, escrevi para o poeta e escritor cearense Eduardo Campos solicitando emprego no serviço público e recebi um “não” do poeta com a mais providencial justificativa: “(...) Não tenho como abrigar sua inteligência na minha empresa. Nem como remunerá-la. A administração pública, a quem servi com dedicação, falhou-me na única reivindicação que postulei para pessoa de minha família. (...) Participe de quantos concursos aparecerem. E estude. E lute. Não é tempo de depor as luvas. Não sei se o decepciono. Se involuntariamente o faço mais triste, me desculpe. Tenho, em primeiro lugar, compromisso comigo mesmo de ser sincero. Estou convencido de que você vai obter o que deseja. É só questão de paciência e tempo” (14.9.1983)

Assim, a carta traduz muito desse diálogo sincero e prazeroso. Tudo começa com a remessa da carta e a partir daí ficamos numa expectativa febril de reposta. Passa o tempo e um dia x, manhã ou tarde, o grito do carteiro do bairro é a síntese do estado de espera: “Correio!”. Começamos, então, a desfrutar o prazer de receber o “pacote”, tocar na folha ainda com cheiro de tinta fresca e recebemos a remessa como se fosse um néctar dos deuses. O diálogo, por meio de cartas, é o milagre da linguagem verbal.

1. Tudo começou na Sala de Leitura do Colégio

Em 1979, ainda aluno do ensino fundamental no Colégio Militar de Fortaleza fundei, com o colega de sala de aula Daniel Hortêncio de Medeiros, o Grupo “Jovens da Literatura Moderna”.

O local escolhido para funcionar a sede provisória do grupo foi a biblioteca do Colégio, mas longe dos olhares “tirânicos” do seu Juarez, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e que não admitia um só ruído nas dependências da Biblioteca. A primeira idéia saiu do Hortêncio: “ Vamos lançar um Manifesto!”. Mas a palavra Manifesto era proibida no Colégio Militar (afinal, vivíamos, no País, em pleno clima de ditadura militar) e aí resolvemos de forma silenciosamente “subvertora” escrever para os escritores brasileiros, numa espécie de apelo à solidariedade dos literatos, contando-lhes de nossa “sociedade secreta”.

Aliás, a idéia de ser, também, escritor ou poeta, no contexto de Colégio Militar, quando não despertava risos dos colegas de sala gerava um clima de desconfiança de nossa virilidade: “poeta é coisa para baitola” ou coisa do tipo “militar só é pra macho”. Mas onde os escritores? E veio uma resposta óbvia: na biblioteca.

E assim procedemos: começamos a investigar de estante a estante os “escritores disponíveis”, isto é, vivos e com endereço para correspondência postal. A primeira foi Lúcia Pimentel de Sampaio Góes, grande escritora de livros de Literatura Infantil.
[1] A partir daí, escrever para os literatos foi um hobby que se transformou interesse acadêmico na fase universitária. Foi no Curso de Letras da UECE, que, sem Hortêncio (viajou para fazer Direito em Curitiba), entrei em contato com a Literatura Brasileira e travei meus primeiros contatos postais com os poetas da Geração de 45. Mas que contexto geracional foi o de 45 no mundo das letras?

2. Contexto sócio-cultural da Geração de 45

A geração de 45, diferente do movimento de 1922, surgiu num momento histórico significativo no Brasil e no Mundo. Não foi um movimento de ruptura radical com a estética literária do século XIX, da estética do passado, como fizeram os poetas de 22, mas uma revalorização do passado eterno e da valorização da palavra, como instrumento maior da poesia (MARTINS: 1945, P. 147).

No plano político, a história social da geração de 45 é marcada, pois, pelo ano de 1945, em que termina, no mundo, a Segunda Guerra Mundial e, no Brasil, dá-se o fim da ditadura de Vargas. O mundo passa a viver a guerra fria, e o Brasil um período democrático que chegaria à euforia no governo de Juscelino Kubitschek (!956-1961).

Enquanto os escritores de 22 foram mais exigidos politicamente, os poetas de 45 são menos exigidos social e politicamente. Se os poetas de 22 são radicais no trato poético, os poetas de 45 são racionais e têm a sobriedade lírica como atitude poética. Os poetas de 45 buscam uma renovação literária cuja preocupação principal é a própria linguagem.

O caminho, porém, não foi o de reformar, mas o de afirmar valores estéticos. Assim, evidencia-se, desde logo, a tendência formalizante dos poetas da Geração de 45, o que deu margem, segundo alguns críticos literários, a especulação do reaparecimento de um grupo mais neo-conservador e classicizante, de modo a sugerir uma restauração da estética parnasiana. Gerou-se aí um grande equívoco.

Os poetas da Geração de 45 não são parnasianos nem neoparnasianos. Os parnasianos são neoclássicos e têm suas características bem definidas. Os poetas da geração de 45, ao contrário, são neomodermos e buscam, na herança da modernidade, o universalismo temático, o senso de medida do verso e a dicção literária coerente com o conceito de poesia como arte, caracterizado pelo ritmo e pelo sentido. Para estudiosos como Alfredo Bosi, os poetas de 45 traduzem uma oscilação entre o puro estetismo subjetivo e a poética participante e experimentalista. (BOSI: 1993, p.521)

A palavra escrita (para alguns críticos, o palavreado) é marca substantiva na poesia da Geração de 45. Há uma extremada atenção dada pelos neomodernistas ao problema vocabular da poesia. Concebem a palavra escrita como elemento essencialmente da poesia.

A valorização da palavra, com certeza, tem levado muitos críticos literários a verem na poesia da Geração de 45 ideais parnasianos. A afirmação parece se sustentar na constatação de que os poetas de 45 partem da linguagem como ferramenta básica da criação literária. É o que se convencionou denominar de tendência neoparnasiana. Há uma corrente de críticos literários que asseveram que os escritores da Geração de 45 fizeram uma adesão explícita, no plano poético, à tendência neoparnasiana da época, excepcionalmente rompida com a poema-objeto de João Cabral de Melo Neto. Hoje, porém, teórico como Milton de Godoy Campos relativiza essa associação entre a Geração de 45 e o Parnasianismo. (CAMPOS: 1985, 161).

O cultivo do poema não é decisivo indício de identidade entre a geração de 45 e o movimento parnasiano. O compromisso estético dos poetas da geração de 45 foi o restabelecer o apuro formal e vernacular. Isso não os torna neoparnasianos, mas neomodernos

O weltansechauung
[2] da Geração de 45 é radicalmente diferente dos parnasianos . Segundo Milton de Godoy Campos, os parnasianos viam na arte poética um trabalho artesanal como fez Olavo Bical no poema Profissão de Fé, de cunho elitista, a obra da Geração de 45, ao contrário, bem representada pelo poeta Domingos Carvalho da Silva, volta-se a uma atitude de cunho político, reveladora da angústia existencial, do choque de pensamentos contraditórios, os problemas de linguagem e as mazelas sociais e humanas.

O poema Canto em Louvor do livro Rosa Extinta, publicado em 1945, revela bem a atitude neomodernista, resultante das inquietações do século 20:
Quero a poesia em essênciaabrindo as asas incólumes.Boêmia perdida ou tísica,quero a poesia liberta,viva ou morta, amo a poesia.Poesia lançada ao ventoquero em todos os sentidos.Despida de forma e cor,Repudiada, incompreendida,quero a poesia sem nome,feita de dramas gigantes.Quero ouvir na sua vozo canto dos oprimidos:usinas estradas campos,quero a palavra do povotransfigurada num poema.Quero o meu canto sobrenadeondas revoltas do mare alcance todos os portose beije todas as praias!Quero a poesia sem pátriabanida pobre extenuada,a poesia dos proscritos, negra ou branca, amo a poesia!Quero a palavra fluente, viva e inquieta como o sangue.Pura ou impura eu reclamoA poesia do momento, filtrada exata constante

3. O neomodernismo da Geração de 45

A construção do conceito de Geração de 45 deve-se a pelo menos quatro personalidades do mundo literário: Sérgio Milliet, Tristão de Ataíde, Péricles Eugênio da Silva Ramos e Domingos Carvalho da Silva.
O ensaísta Sérgio Milliet apontou, em 1946, a presença de poetas de uma nova corrente que tentava voltar ao equilíbrio das construções poéticas.

A poesia do poetas de 45 se consolidou como expressão de lirismo nobre, sobriedade poética e decantação voluntária. Sérgio Milliet atribuía aos poetas da geração de 45 os seguintes traços: a) revalorização da palavra, b) a criação de novas imagens; c) a revisão dos ritmos e d) a busca de novas soluções formais.
Um ano depois Tristão de Ataíde assinalou a aparição de um movimento neomodernista na literatura brasileira. Coube, também, ao ensaísta classificar a poesia posterior à Semana de Arte Moderna em três fases: a) de 1922, denominada Modernismo; b) 1930, pós-modernismo e c) 1945, neomodernismo. Portanto, a denominação de neomodernistas está respaldada pelo crítico Tristão de Ataúde e tem o respaldo teórico-literário de Domingos Carvalho da Silva, porta-voz do grupo.

Em 1945, artigo de Péricles Eugênio, publicado na Revista Brasileira, confirmando o novo período da poesia moderna, reação veemente de Oswald de Andrade. Já em novembro de 1933, em carta a Afrânio Zuccolotto, que posteriormente veio fazer parte do grupo de 45 (com ele, também mantive intercâmbio postal), Oswald de Andrade reagia à proposta da revista denominada Ritmo, reagindo assim: “Numa era sincopada e arritmíca, como a nossa, esse nome só podia brotar em gente que atola no creme de ilusões dos antigos compassos”.
Somente a partir de 1948, os neomodernistas adquiriram uma consciência de geração. Tinham uma atitude comum: a) busca de uma expressão pessoal e não repetição do temário e das fórmulas verbais da geração de 1922. Diferente da atitude dos poetas de 22, os poetas da geração de 45 têm quase total desinteresse pelos temas político-sociais.

A Geração de 45 sofreu influência dos poetas de 22, mas, a partir de 1946, exerceu influência nos poetas remanescentes de 1922, que passaram a escrever uma poesia de maior preocupação estética e de amplitude mais universal, mais humana, e menos paisagística.

As tendências neomodernistas foram manifestas, inicialmente, através de Congressos e Revistas. Quatro Congressos foram importantes: os dois primeiros, em Recife, denominado I Congresso de Poesia do Recife, em 1940 e o II, em 1941. Em 1942, houve o Congresso de Poesia do Ceará e em 1948, o I Congresso de Poesia de São Paulo, este último de grande importância na afirmação geracional do grupo.

As Revistas que deram suporte aos poetas foram disseminadas em vários Estados da Federação: no Ceará, a revista José; Região, no Recife; Joaquim, em Curitiba e Orfeu, no Rio.

A revista Panorama da Nova Poesia Brasileira (Rio, 1951), de Péricles Eugênio da Silva Ramos, foi a primeira antologia de poetas neomodernistas. A partir, de 1947, a Revista Brasileira de Poesia foi porta-voz do movimento neomodernista. Passemos agora a ler excertos de cartas recebidas, por mim, de poetas de 45.

4. As cartas dos Poetas da Geração de 45

4.1.Domingos Carvalho da Silva – Nasceu em Portugal, em 21 de junho de 1915. Teve uma atuação destacada na fase polêmica, de afirmação da poesia neomodernista. Durante a realização do 1o Congresso Paulista de Poesia, em 1948, apresentou a tese acerca da “Geração de 45”, designação que foi o primeiro a usar.

Meu primeiro contato com poeta começou em 1985, quando aluno do Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Durante as aulas de Literatura Brasileira (Modernismo), ministradas pela professora Eurides de Freitas Pitombeira, fui estimulado a iniciar o intercâmbio com os poetas.

A partir do livro Literatura & Linguagem, de Nelly Novaes Coelho, fiz um levantamento dos poetas da geração de 45. Fui estrategicamente à biblioteca e, após uma exaustivo exame de revistas literárias, deparei-me com a Revista de Poesia e Crítica, editada por Domingos Carvalho da Silva e em seguida entrei em contato com os membros da Revista: Cyro Pimentel(SP), Domingos Carvalho da Silva(Brasília, DF), Afrânio Zuccolotto (SP), Anderson Braga Horta(Brasília,DF), José Paulo Morteira da Fonseca (RJ) e Lago Burnett (RJ), que enviaram livros para minha apreciação. Na lista dos nomes, estavam, também, Péricles Eugênio da Silva, Ledo Ivo, Gilberto Mendonça Teles, Diana Bernardes, Artur Eduardo Benevides, Valdemar Lopes, José Jézer de Oliveira e Antônio Fábio Carvalho da Silva, que, por qualquer motivo, não estabeleceram o intercâmbio postal.
Na Biblioteca do Centro de Humanidades da UECE, anotei o endereço do poeta Domingos Carvalho da Silva e remeti-lhe uma carta solicitando suas obras poéticas e propus uma “amizade” por intercâmbio postal. Uma semana depois, o poeta responde assim: “ Meu jovem amigo: foi com satisfação que li a sua carta de 18 do corrente. Vejo, pelas suas palavras, que a “ Revista de Poesia e crítica”, como o trigo da parábola famosa, nem sempre cai em terra sáfara. O objetivo – meu e dos meus companheiros da R.P.C – é justamente atingir o escol intelectual dos jovens, nesta hora em que os princípios da estética literária vêm sofrendo as mais constrangedoras deformações”.

Na Carta, Domingos Carvalho faz ainda referência ao poeta cearense Artur Eduardo Benevides, da Geração de 45, integrante do Conselho da Revista de Poesia e Crítica, para que o procure e solicite números atrasados da revista que havia solicitado na primeira carta. A partir daí, remeto-lhe mais cartas solicitando mais exemplares atrasados e fazendo questionamentos sobre os poetas da Geração de 45, o que acaba gerando a seguinte reação do poeta no início da carta a mim endereçada a 13 de fevereiro de 1985: “ Meu jovem amigo: não disponho, infelizmente, de condições para dar resposta a todos os temas de sua carta do dia 31 de janeiro. Bastará dizer-lhe o seguinte: de 24 de janeiro até ontem expedi nada menos de sessenta cartas”. O que vem revelar a intensa correspondência que mantém o poeta. Entre os livros recebidos, tenho, autografado, Uma Teoria do Poema, onde são analisadas idéias de todas as épocas, de Aristóteles a Croce, de Hegel a Iuri Lotman, que exerceram forte influência na formação teórica e estética dos poetas da Geração de 45.

O poeta Domingos Carvalho da Silva é o principal porta-voz da Geração de 45. Seu estilo poético é caracterizado por um rigor técnico e expressão de vivência pessoal. Uma das grandes contribuições do poeta talvez está na formulação de uma teoria do poema.

Em entrevista concedida ao jornalista e poeta Carlos Germán Belli, publicada em El Comercio de Lima, o poeta Domingos Carvalho da Silva define poesia como um tipo de linguagem cuja base estrutural é o ritmo do verso. Na concepção do poeta e que reflete também a posição dos poetas da Geração de 45, o ritmo e a semântica dão à linguagem a feição de poesia. O poeta vê na poesia, mais do que produto intuitivo, encontra no poesia resultado da experiência da linguagem e da existência humana.

O poeta Domingos Carvalho da Silva diz, na referida entrevista, que seu processo de criação poética se realizada por impulso intuitivo e inesperado, mas em seguida se faz necessária a intervenção de mecanismos racionais de estruturação e polimento do poema. A poesia de Domingos Carvalho tem influência de poetas como Góngora, Baudelaire, T.S. Eliot, Castro Alves, Camões e Neruda.

4.2. José Paulo Moreira da Fonseca – Nasceu a 13 de junho de 1922, no Rio de janeiro. O poeta, também pintor, cursou Direito e Filosofia na universidade Católica do Rio. É um dos fundadores da revista Tempo Brasileiro. Seu livro de estréia Elegia Diurna, publicado em 1947, colocou-o entre os poetas mais característicos do movimento neomodernista.

O contato com o poeta também começou em janeiro de 1985. Dez dias depois de ter-lhe enviado minha primeira carta, de cunho muito formal, o poeta me responde assim, de forma bem informal: “ Recebi sua carta de 18 de janeiro e tenho todo interêsse em travar diálogo sobre literatura, porque este diálogo mantém acesa a alma de nosso país. Peço todavia que não me chame de “ excelência”, nada mais sou que um simples homem, como diria UNAMUNO, e a excelência autêntica é sermos bem humanos, ilimitadamente humanos, o resto pouco importa, são frações decimais”

4.3. Ciro Pimentel – Os dados bibliográficos, não registrado no Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, de Massaud Moisés, foram enviados a mim pelo próprio poeta, em carta data de 24 de abril de 1985: “ Em atenção à sua carta de 18 de março p.p. envio-lhe alguns dados pessoais: nasci aos 22 de outubro de 1926, em São Paulo, Estado de São Paulo. Sou autodidata, apesar de Ter cursado “ Ciências Contábeis”. Todos os meus livros citados, em “Poemas Atonais”, foram publicados pelo Clube de Poesia de São Paulo. De 1979 para cá, nada publiquei. Tenho pronta, uma antologia poética, dos meus cinco livros, que estão esgotados.” E continua o poeta no parágrafo seguinte: “ O Clube de Poesia de São Paulo (e não Clube de Poesia e Crítica, que é de Brasília) foi fundado em 1948, sendo seu 1o presidente o poeta Cassiano Ricardo. O meu primeiro livro, em 1948, foi editado pelo Clube, que revelou também poetas como Décio Pignatari e Haroldo de Campos, em 1949, entre outros”. Os parágrafos seguintes da carta são indicações de contato para que possa conseguir revistas e livros do grupo. Dos livros autografados, tenho Paisagem Céltica (antologia poética), dedicado a Domingos Carvalho da Silva, e que traz um estudo introdutório sobre a poesia do poeta feito pelo ensaísta Gilberto Mendonça Teles.

4.4. João Manuel Simões - Entre os poetas ligados à geração de 45, travo contato com o poeta Simões. Nosso primeiro contato aconteceu em janeiro de 1986. Na primeira carta, sente-se o grau de liberalidade e generosidade do poeta: “ Prezado Amigo Vicente Martins: Apresso-me a responder-lhe, atendendo o seu pedido, aliás muito honroso para mim. Estou anexando ao presente uma primeira “ dose” dos meus trabalhos(daqueles, naturalmente, de que possuo exemplar disponível). Oportunamente, se a primeira dose não o desgostar demais, terei de encaminhar uma Segunda dose...Abraços “ ex corde” do Simões”
Depois de ler os livros da primeira, senti uma grande influência do poeta português Fernando Pessoa na poesia de Simões, o que mereceu a seguinte observação do poeta: “Começo por agradecer a nota generosa sobre os meus apontamentos balzaquianos e, de modo especial, a associação do meu nome modesto ao imenso Pessoa (que, ao lado de Drummond e de Camões) integra aquele que eu considero a Santíssima Trindade Poética da Língua. É uma suprema generosidade que eu [ autoconsciente, embora, do valor da minha obra poética – absolutamente não mereço”.

Em 1987, posicionando-se a respeito de artigo meu publicado em O Estado (Fortaleza, CE) , sobre a Geração de 45, assim observa o poeta: “ Pondero apenas que não pertenço á geração de 45, com a qual me sinto apenas identificado, em termos de estrutura poemática & substância poética. Sou nascido em 1939. Sou, portanto, da geração de 70 (a grosso modo, é claro..)”. Curioso é que a reação de Simões nos faz lembrar também a de João Cabral de Mello Neto que era taxativo em dizer “ eu não sou de 45”, sem levar em conta que o movimento neomodernista é uma afirmação de tendência estética e clássica do Modernismo deflagrado em 1922 e que perdura ainda nos nossos dias. Não é o tempo que define um estilo de época, mas a filosofia da época e a estética literária. (MARTINS: 1990)

4.5. Lago Burnett – Já falecido, mantive contato com o poeta somente em 1985. Na época, estudante, queria ser (imaginem só!) um crítico literário, o que me levou a receber a seguinte lição do escritor e jornalista: “ Agora, vamos aos assuntos de sua carta. Você quer saber o que acho de “pensar em ser um crítico literário” – naturalmente referindo-se a você próprio. Se, é claro, sente que tem embocadura e equipamento cultural para tanto, não há por que conter a vocação. E os nossos críticos são sempre muito escassos. Mais do que as teorias literárias, separam-nos a eles as convicções ideológicas”.(20.03.1985). O livro A Língua Envergonhada tem sido um livro de cabeceira na minha prática docente.

5. À guisa de Conclusão

A epistolografia na Literatura Brasileira revela de forma verdadeira a atividade intelectual e literária dos escritores e poetas. O intercâmbio postal é um forma de escritor e leitor prolongarem a conversação. Minhas correspondências com escritores e poetas brasileiros, reunidas no que denominei Cenáculo Postal, marcam uma época no processo de formação escolar. Sinto-me honrado em ter trocado com escritores como Eduardo Campos, Nertan Macedo, Lúcia Pimentel de Sampaio Góes, Ciro Pimentel, Márcio Catunda, César Olímpio Ribeiro Magalhães, Elpídio Reis, Ademir Antônio Bacca, Stela Maris Rezende, Veríssimo de Melo, Aloísio Bezerra, entre outros.

Foi nesse intercâmbio postal, especialmente durante a década de 80, que recebi e aceitei convite para ser membro correspondente de instituições como Academia Eldoradense de Letras (Eldorado – São Paulo), por indicação do escritor João Albano Mendes da Silva e do Centro de Letras do Paraná, por indicação do poeta João Manuel Simões, este último, inclusive, enviou-me quase todas suas publicações para que pudesse não apenas ler, mas avaliá-la na condição de especialista em Literatura Brasileira. O desafio maior, agora, é transformar este material em importante fonte de estudos epistolográficos e literários.
7. Bibliografia:

1. BOSI, Alfredo. Literatura brasileira. SP: Cultrix, 1993.
2. CAMPOS, Milton de Godoy. A geração de 45 e o parnasianismo. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 161-166. Jan/dez. 1995
3. CARNEIRO, André. A geração de 45. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 155-160. Jan/dez. 1995
4. COELHO, Nelly Novaes. Literatura & Linguagem. São Paulo: Quíron, 1980.
5. HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Literatura e poesia. Revista de poesia e crítica. Ano VI – No 8 – Brasília – setembro – 1982. p. 2-12. NUNES, Cassiano. A correspondência de Monteiro Lobato. Boletim bibliográfico da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V.43. n ½. P. 67 a 87. Jan/jun.1982
6. MARTINS, Ives Gandra da Silva. Geração de 45: cinqüenta anos. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 147-149. Jan/dez. 1995
7. MARTINS, Vicente. A questão da periodização na literatura brasileira. Fortaleza: UECE, 1990. (monografia de especialização).
8. PAES, José Paulo e MOISÉS, Massaud. Pequeno dicionário de literatura brasileira. SP: Cultrix, 1969.
9. RODRIGUES, Geraldo Pinto. Os poetas e o clube de poesia. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 151-153. Jan/dez. 1995
10. SAMPAIO, Maria Lúcia Pinheiro. A geração de 45: variadas vertentes. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 167-172. Jan/dez. 1995
11. SILVA, Domingos Carvalho. Verbete neomodernismo. PAES, José Paulo e MOISÉS, Massaud. Pequeno dicionário de literatura brasileira. SP: Cultrix, 1969.

[1] No 18 de março de 1994, conheci a escritora Lúcia Góes durante Feira de Livros, no Centro de Convenções em Fortaleza.
[2] No alemão, quer dizer cosmovisão, isto é, concepção ou visão do mundo.


Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará. E-mail para contato: vicente.martins@uol.com.br